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Um Frame Só lembro-me de abrir os olhos e estar lá. Escuridão total. Para onde quer que olhasse, escuro. Concentrava-me para tentar escutar algo... nada. Em momentos assim temos apenas duas escolhas a fazer: sentar e esperar ou ir. Fui!

Nessas condições, sem referências, devemos confiar em nosso instinto e foi ele quem me guiou, fechei os olhos e projetei uma imagem em minha mente, um ponto de luz, era apenas o que precisava um ponto de luz em toda aquela escuridão. Dei o primeiro passo, inseguro, curto, sem firmeza. Encontrei uma base, larga e sólida, era o que precisa para o segundo, o terceiro, quarto...

O que resta para uma pessoa mergulhada num mundo de silêncio e escuridão? A imaginação, lembranças, um mosaico de imagens projetadas em minha mente, e nesse momento percebi que para chegar onde queria precisaria apenas da minha mente.

Não consigo quantificar o tempo ou a distância que percorri, apenas segui em frente e por seguir eu avistei uma luz, um pequeno ponto de luz. Toda a realidade se alterou, as imagens e minha mente também. Comecei a pensar em distâncias que percorri, em objetos que alcancei, nas relações de tamanho e distância, o quanto um objeto grande parece pequeno de muito longe e o contrário também e aquela formiga gigante vista de tão perto.

O que seria aquele ponto de luz? Uma lanterna? Qual o tamanho? Uma televisão talvez? Uma luminária, uma vela, algum aparelho eletrônico ligado, um celular, um reflexo, um espelho, um copo... Uma janela! Sim uma janela. Foi o que projetei em minha mente. Uma Janela. Como ela seria? Redonda ou retangular? Com certeza retangular, sem grades apenas com um vidro. Através dele poderia ver novamente, mas o que eu veria? Cores, formas, texturas. O coração acelera, os passos duplicam, a vontade de chegar, de saber o que tem além dela. De repente... uma dúvida. E se o que tiver além da janela não for bom, ou pior, e se não for uma janela? Medos, dúvidas, solidão!

Os passos diminuem, o coração desacelera e o ponto de luz parece diminuir. Tudo parece estranho e sem sentido e quando percebo não há mais um ponto de luz, há apenas a escuridão. O que aconteceu, como ele desapareceu? Talvez não fosse uma janela, talvez uma lanterna ou uma luminária que apagou, talvez estivesse sonhando, talvez fosse minha imaginação? Frio. Paro e deixo meu corpo cair, tento projetar alguma imagem em minha mente, mas nada vem. Como sumiu? Será que fiz alguma coisa, tento retroceder e ver onde desapareceu. A dúvida me deixou sem foco, o medo me fez virar.

Levanto e me acalmo, a respiração volta ao normal. A dúvida e o medo se foram nesse momento. Giro meu corpo. Lá está ela, a luz, havia dado as costas para ela, deixei o medo tomar conta o que me fez seguir no caminho contrário.

Retomo o caminho, limpo a mente e as boas imagens voltam, a confiança aumenta e sigo em frente. Tenho a certeza de estar mais perto, seu tamanho aumenta mais e mais, uma forma se apresenta, sim um retângulo. A intensidade da luz é forte, consigo ver o rastro da luz, consigo ver sua projeção no chão.

Corro! Uma janela, a luz forte, a projeção no chão, tudo é nítido agora. Hesito um pouco, não por dúvida ou medo, tanto tempo no escuro preciso de alguns segundos para meus olhos acostumarem com a luz. Aproximo-me da janela, vejo cores, mas não vejo formas, apenas rastros de luz, rastros coloridos. Pisco rapidamente tentando limpar minha retina, percebo uma forma, parece um corpo, uma pessoa. Novamente preciso de tempo para meus olhos. Fixo o olhar em um borrão verde, alguns rastros passam por ele, mas é lá que fixo meu olhar. Uma textura se revela diferenças de tons, claros e escuros, formas ficam nítidas: um gramado. Amplio o meu raio de visão, agora consigo perceber tudo. Crianças correndo sobre o gramado, árvores, flores, um lago o céu azul com algumas nuvens e uma mulher. Olhos pequenos, rosto de traços suaves, cabelos levemente ondulados e corpo bem definido.

Gravo essa imagem em minha mente e surge uma vontade imensa de fazer parte, de vivenciar aquele momento, mas como? Olho ao meu redor, a luz que invade a janela, ilumina meu corpo, procuro uma maneira, algo que me faça sair daquele lugar, daquela câmara escura. Afasto-me, percebo algo que não tinha visto antes, um reflexo na janela, deixo de focar na cena além da janela e fixo no reflexo: sou eu.

Percorro minha face, boca, rosto, nariz, cabelos e olhos. Meus olhos, não os vejo, eles estão fechados, mas como posso enxergar essa imagem, esse quadro, se estou de olhos fechados? Sim, agora tudo faz sentido, é simples. Basta abrir os olhos.

Fotografia é isso, nossas vivências experiências, nosso modo de enxergar as coisas, objetos, pessoas. Todos somos fotógrafos, cegos ou não. Precisamos apenas abrir nossa mente e enxergar além do que vemos.



Autor

Theo Grahl

Sócio - diretor da BONITA Produções, Diretor de Fotografia, videoartista e publicitário formado pela PUC-SP.
Coordenador da Oficina de Fotografia “O Frame”, ministrada em São Vicente para o projeto Oficinas Culturais do Estado de São Paulo. Professor de fotografia para o curso de Fotografia e Patrimônio da Associação Beato de Anchieta.


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