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Técnica Fotográfica
Miksang, a Fotografia Contemplativa Parte 2 - Como fazer: Miksang (termo tibetano que significa o bom olho), ou Fotografia Contemplativa, é uma prática ligada à meditação, que visa trazer nossa visão para o presente, abrindo nossos olhos e permitindo ver o “novo” no cotidiano. Antes de uma técnica fotográfica é uma forma de ver o mundo e de viver. Veja a parte 01 deste artigo para entender o que é a Fotografia Contemplativa.

Neste artigo vamos tratar da parte prática, de como fazer Miksang!

Para realizar a fotografia contemplativa o ideal é sair para a rua, para quase qualquer lugar (evite os “cartões-postais”) com tempo, sem preocupações ou objetivos, apenas vendo e sentindo o impacto visual das coisas, o “flash (lampejo) de percepção”. A prática tem três etapas:

  • Flash de percepção - É um instante em que a visão é clara e profunda. É o momento exato que olho e mente se alinham, uma pausa no processo racional. Isso ocorre com todos e sempre. O desafio é reconhecer esse lampejo da percepção. É preciso estar disposto e aberto para poder reconhecer o flash, caminhar em direção à calma e imobilidade é essencial. Temos que aprender a apreciar o cotidiano, e saber que o flash será repentino e ira quebrar nossa rotina, é preciso deixar isso ocorrer. Exemplo: imagem no reflexo do monitor ou TV.

    O “Flash” é como uma epifania. “Obviamente, uma epifania não pode ser criada, ela simplesmente acontece, um ato de graça, acidente e transformação — no entanto, é o trabalho anterior que torna tal “acontecimento” possível. E o que é uma epifania? Diria que é uma mudança repentina da mente, quando a preocupação consigo (e outras formas de preocupação) se dissolve e ocorre um momento quase explosivo de apreciação.” (Scheffel).

  • Percepção visual - Momento de manter o flash, não cair em reflexões e deixar a cena nos guiar. Não sair do presente e não cair em expectativas. Deixar na banguela, não fazer nada. O flash pode ser claro ou não, pense então no que te parou, e não faça perguntas conceituais, tente perguntar sem palavras. As respostas tem que ser visuais. Não rotule.

  • Formando o equivalente - Só pegue a câmera depois de entender seu flash. Devemos fotografar o que vemos, achar na cena o que realmente nos despertou e entender qual composição isso pede.

A atitude deve ser sempre de sinceridade, autenticidade e confiança. Se perder o flash, não se preocupe, siga em frente, outros surgirão!

Sem idealização

Se por um lado idealizamos demais as coisas, tentamos encaixá-las em nossas expectativas, também tentamos esconder o que há de mais real. Temos medo do que há em nossos corações? O coração é muito sensitivo? Ainda temos o problema da pressa, somos muito ocupados, não há tempo para olhar para o nosso interior, e não há tempo há perder com o que não nos trará ganho. Temos ainda o tédio, o não suportar ficar sem fazer nada.

Mas precisamos de momentos mais calmos e sem expectativa, que farão o coração exposto. Assim podermos nos conhecer e quebrar o ciclo de descontentamento e compulsão. Para se abrir à riqueza do mundo é preciso se expor. Um coração mais aberto leva a um olhar mais aberto.

Exercícios

Para praticar e entender o estilo Miksang é preciso praticar e se esforçar. É importante buscar ver o mundo de forma mais limpa e clara. Como há inúmeros aspectos da visão (cor, luz, textura...) precisamos, inicialmente, filtrar nossa visão, ora observando apenas cores, ora apenas texturas, e em outros momentos apenas espaço, ou luz, ou forma. Os exercícios devem ser feitos em pequenas caminhadas, estando abertos aos flashes de percepção. Ande e busque se conectar a apenas um dos elementos.

1. Luz

Prestar atenção à luz uma maneira de permanecer no momento, enraizado na experiência real de ver as coisas como elas são. É também uma alegria. A dança da luz solar tem grande poder para nos animar. (baseado em: http://seeingfresh.com/photo-submissions/light)

2. Cores

Procure observar apenas cores. As coisas não terão formas ou funções, apenas cores. E espere que cores te chamem para o flashe, te prendam, então tente compreender (visualmente) que parte da paisagem te atraiu, o que pertence ao flash, e esse será o enquadramento da foto a ser feita no final.



3. Forma e espaço

Busque ver apenas formas inseridas no espaço.



4. Espaço

Perceba o espaço. Objetos podem estar na imagem, mas apenas para delimitar e destacar o espaço.



5. Texturas

As coisas não serão coisas, serão texturas, sem forma, sem função. A textura chama a atenção dos olhos quase como um toque, quase faz cócegas.



Parte do aprendizado da fotografia miksang é conseguir ver apenas o que pode realmente ser visto... Primeiro buscamos “separar” luz, cor, textura, etc, mas depois você poderá observar a realidade sem essa separação.

Conclusão

Nem sempre devemos fotografar pensando na utilidade ou valor da foto. Quando algo lhe chamar a atenção, não pense se a foto vai ficar boa, se vai valer dinheiro, se vai ganhar prêmios, etc. Apenas pare, tente entender visualmente o que prendeu sua atenção, e então fotografe. Depois veja a foto que fez e olhe de novo a cena. Avalie se ela corresponde ao que te chamou a atenção. Senão refaça. Mas se não conseguir, se o momento passar, não se preocupe, esse momento passou, mas outros virão.

Isso vale mesmo quando não estamos fotografando. Se algo atrair sua visão a qualquer momento, não pense “não estou fotografando agora”, nessa hora vale a câmera que estiver à mão, até o celular. E caso não haja nenhuma, vale a pena fazer o exercício do olhar mesmo assim, busque compreender o que está vendo, visualmente, e perceba a riqueza e a arte presentes no cotidiano. Ficando atento aos "Flashes of Perception", ou "Lampejos de percepção" tenho começado a ver coisas que não via antes, e o dia-a-dia tem se tornado mais agradável, mais surpreendente.

Dar valor e entender sua visão é muito mais importante do que pode parecer!



Sugestões

Em frente ao PC, faça sua seleção com calma, olhe longamente para suas fotos. Esta é uma oportunidade para lhe dar um feedback e refinar seu entendimento da percepção, e desenvolver sua sensibilidade. Veja se as imagens vem de um flash e se elas representa mesmo o que lhe atraiu. Se não, pense no porque?

Na hora de editar vale cortes e correções, mas quanto menos forem preciso, significa que mais perto você chegou de registrar o que viu.

Fica a dica:
  • Participar de grupos, mostrar e ver fotos é essencial. Cultura de forma geral também.
  • Aplique estes conceitos em sua vida ampla!
  • Tome cuidado ao fotografar na rua, cuide de sua segurança, respeite as pessoas fotografadas e tenha sempre a Ética em mente.

Referências:

GALLIAN, Dante Marcello Claramonte. Dá, pois, a teu servo um coração que escuta. Blog do LabHum, 2009 Disponível em: http://labhum.blogspot.com/2009/12/da-pois-teu-servo-um-coracao-que-escuta.html

KARR, Andy e WOOD, Michael. The Practice of Contemplative Photography: Seeing the World with Fresh Eyes. Shambhala Publications, Boston, 2011.

Arte de rua, dharma/arte: epifanias, por Bill Scheffel

http://blogs.dharma.art.br/2011/12/arte-de-rua-dharmaarte-epifanias/

Mais sobre Miksang:

www.fotocultura.net/index.php/a-fotografia-contemplativa-miksang
www.miksang.com/miksang.html
www.conceitualdesign.com/miksang/miksangintro.htm




Autor

Yuri Bittar

Designer, fotógrafo e historiador. Mestre em Ensino em Ciências, na Universidade Federal de São Paulo, graduado em Desenho Industrial (Mackenzie) e História (USP), atua como designer gráfico, desenvolve cursos de fotografia, exposições e as saídas Fotocultura, além de pesquisas sobre humanização no ensino da saúde. Através da história oral, da fotografia, da literatura e outros recursos, tem buscado criar projetos mais próximos ao humano.

Website pessoal: http://www.yuribittar.com


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