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Técnica Fotográfica
Miksang, a Fotografia Contemplativa

Miksang (termo tibetano que quer dizer o bom olho) ou Fotografia Contemplativa, é uma prática ligada à meditação, que visa trazer nossa visão para o presente, abrindo nossos olhos e permitindo ver o “novo” no cotidiano. Antes de uma técnica fotográfica é uma forma de ver o mundo e de viver. Essa prática e tem causado forte impacto na minha forma de ver o mundo e até de viver. Por isso pretendo neste artigo compartilhar um pouco dessa experiência.

É importante resaltar que Miksang é um fazer, e não o resultado. Por isso o que fizemos antes de conhecer a fotografia contemplativa pode até parecer Miksang de alguma forma, mas não é realmente.

“A prática da fotografia contemplativa liga-nos com essa consciência panorâmica não conceitual e fortalece essa ligação por meio de treinamento. A prática em si mesma consiste de três partes, ou estados. Primeiro aprendemos a reconhecer vislumbres de ver e do estado contemplativo da mente que ocorrem naturalmente. Em seguida estabilizamos essa ligação olhando mais profundamente. Finalmente fotografamos do interior desse estado da mente.” The Practice of Contemplative Photography, de Andy Karr e Michael Wood.

Muitos acreditam que, para se tornar um bom fotógrafo, é preciso ter um talento nato, ou passar por um árduo treinamento técnico e dispor de equipamento sofisticado. Claro que estes três fatores são importantes, mas talento, treinamento técnico e equipamento são, por definição, limitados. Porém, para ser um grande fotógrafo, é preciso também, ou melhor, é preciso acima de tudo, criatividade. E a criatividade é, por definição, ilimitada e inesgotável.

Criatividade
Mas a criatividade não é algo que está pronto e disponível em nós, mas sim algo a ser desenvolvido, treinado, nutrido. Portanto voltamos à questão do treinamento, mas não o técnico, mas sim o da criatividade. Para ser um bom (ou ótimo) fotógrafo temos que desenvolver e treinar nossa criatividade. Não há desenvolvimento de criatividade sem experiência, e a verdadeira experiência só ocorre quando algo nos afeta, quando nos deixamos atingir por acontecimentos. Portanto precisamos estar abertos a novos acontecimentos e permitir momentos de experimentação.

É preciso ser fotógrafo em tempo integral, ou seja, amadores ou profissionais, precisam tentar fotografar todos os dias. Mais ainda, que fotografem o tempo todo, porque sugiro que façam isso não só com as câmeras, mas também com o olhar e a mente. Experimentem andar pela cidade, fotografar a realidade, as composições que vão se formando o tempo todo. E nessas composições, numa cidade como a em que vivo, São Paulo, constantemente estão presentes os moradores de rua, crianças, senhoras, trabalhadores, todo tipo de gente, e os detalhes da arquitetura, da paisagem, e muitas coisas que normalmente não reparamos muito!


Pare, olhe, “escute”, perceba quantas coisas interessantes acontecem e nem nos dávamos conta. A fotografia, especialmente com temática social, faz muito sentido no Brasil hoje, pois é uma ótima ferramenta para refletir sobre as diferenças abissais entre as pessoas. Também igualmente importante a fotografia voltada ao sentido estético, pela busca das formas e das linhas, das cores e sensações.

Só aprendemos com o exercício, com o movimento. Apenas saindo de nossa “zona de conforto” geramos criatividade, novas ideias, evoluímos e, assim, seguimos o curso natural do universo, ou seja, crescer e criar.

Momento de lazer
Para muitas pessoas o dia-a-dia é corrido e estressante, sem momentos dedicados a si mesmo. Dedicam-se ao trabalho, à família e quando muito, aos estudos. Claro que trabalho, família e estudos são, ou deveriam ser, coisas boas e da maior importância. Mas é preciso ainda ter momentos dedicados a si mesmo, momentos de se fazer algo que não precisa ser feito, mas que é prazeroso, e para cada um, essa atividade varia, e é o que se chama de “hobby”, ou seja, uma atividade que não é trabalho, mas é levada a sério, à qual se dedica tempo, esforço e até dinheiro, simplesmente pela paixão. A fotografia cada vez mais, permite às pessoas terem esse momento de lazer, praticar a criatividade, registrar momentos, se aprofundar em temas...

Oportunidade para relacionamento humano
A fotografia também tem aproximado pessoas. Seja no contato com as pessoas pelas ruas ou nos sites de compartilhamento de imagens, blogs, ou ainda em encontros e saídas fotográficas, uma paixão em comum permite o surgimento de novas amizades, andanças pela cidade, observação do olhar do outro. Com a fotografia como assunto todos nós, especialmente os mais tímidos, podemos melhorar nosso relacionamento com os outros.

Conhecer onde se vive e autoconhecimento
Aqui creio que está o maior potencial da fotografia como terapia, possibilitar a reflexão, ou seja, o olhar para dentro de si. Sair por aí fotografando, parando para ver, prestando atenção no lugar em que você vive, já seria um ótimo exercício de auto-conhecimento, mas em alguns casos é até mais que isso.

Seja sempre ético
Isto significa respeito a todos os envolvidos e muito cuidado com o que você deve fazer para conseguir a foto. Também leve em conta o uso da foto e, por último, mas muito importante, sempre pense bem no que essa foto representa para a sociedade e como você pode retribuir com os que te ajudaram.

O que fotografar?
Se encante com o comum! Não espere sair pelas ruas e ver algum acontecimento raro e incrível, para daí fazer uma grande foto. As grandes fotografias são de coisas comuns. O que deve ser especial é o olhar do fotógrafo. Observação, criatividade e "reciclagem de ideias", são o caminho para boas fotos!

A Fotografia Contemplativa
Agora vamos falar do Miksang propriamente dito, termo tibetano que quer dizer o bom olho, ou a fotografia contemplativa. Venho praticando este estilo desde 2011, mas recentemente, com a leitura de “The Practice of Contemplative Photography: Seeing the World with Fresh Eyes”, de Andy Karr e Michael Wood, e a participação em uma oficina de dois dias com Andy Karr, pude me aprofundar ainda mais no tema, aproveitando a experiência destes mestres.

Após participar desta oficina, me sinto ao mesmo tempo mais e menos “entendedor” do assunto. Teoricamente entendi melhor a fotografia contemplativa, e também pratiquei de forma mais profunda. Por outro lado percebi como estamos distantes da verdadeira pratica contemplativa, ou seja, como é difícil nos concentrarmos em uma simples tarefa: apenas ver.

A visão é um sentido natural, e naturalmente aguçado e rico. Mas temos simplificado essa ferramenta poderosa de apreensão do mundo, subestimado a inteligência plena de nossa visão. Acreditamos na grande inteligência de nossa “mente pensante” e não percebemos nossos outros tipos de inteligência. Ver, simplesmente, com os olhos e coração (não com a mente discursiva e conceitual), é um exercício que irei praticar cada vez mais, pois essa pratica, acredito, pode nos levar a “abrir os olhos” para um mundo novo, fresco, amplo e lindo.

Podemos definir Miksang como clicar com o coração, notar os milagres do dia-a-dia que normalmente passam despercebidos. Fotografar com esse estilo é ter o olho mais atento que o normal, e bem afinado com o coração! É um conceito de fotografia oriundo do budismo e da meditação, portanto é uma reflexão de si mesmo, e sempre mostra algo sobre seu autor.

É preciso descondicionar o olhar para poder ver assim. Um bom exercício seria visitar lugares desconhecidos, para onde você iria sem saber previamente o que poderia ver. Mas o desafio é buscar o despercebido nos lugares que você já frequenta. Para quem está acostumado a usar a fotografia com algum propósito bem definido e estruturado, seja como trabalho ou arte, que tal deixar “rolar solto” um pouco, fotografar simplesmente o que chama sua atenção, pensando apenas na imagem e não em sua utilidade? Experimente!

Lembre-se que o melhor da viagem é o caminho, por isso abra os olhos para as surpresas da “estrada”, não tenha metas rígidas. Tenha a fotografia simplesmente como um prazer. O miksang é mais ligado ao “como” do que ao “o que”.


Banco vazio, dia vazio... Ao ver essa foto (é que eu vejo a foto antes de fotografar) eu vi uma imagem muito triste, pensei em vazio, escuridão, limo, frio, abandono... eu estava num dia meio pesado, com um pouco de dor nas costas, numa sala vazia esperando uma reunião. Então olhei pela janela e vi o banco e achei que valia a pena registrar esse momento de vazio. Esta foi a primeira foto que fiz com o conceito de Miksang em mente. Numa foto postada dias antes (foto abaixo) a Bel Barbiellini comentou perguntando se era Miksang, e eu não sabia o que era isso. Fui investigar e gostei! Percebi que de certa forma já fazia isso, ou melhor, tentava, pois como fazer algo para o qual não temos sequer palavras? Essa nova ideia veio então responder a alguns velhos anseios dentro de mim. A troca, o contato com outras pessoas, fotógrafos amadores e profissionais, tem me proporcionado enorme aprendizado.


Com esse novo, ou renovado, olhar que adquiri, vasculhei algumas de minhas pastas e encontrei fotos antes desprezadas, e que agora pude ver um valor nelas. Esse novo olhar me mudou mesmo! E ao sair para fotografar, para criar novas imagens, agora vejo muito mais para fotografar, tenho a visão mais ampla. As coisas estão por ai, é preciso apenas prestar atenção e perceber imagens interessantes por toda parte!

Miksang parece ter proximidade com o formato das "polaroids", com os instantâneos, pois ambos podem ser recortes rápidos do dia-a-dia. Assim, para mim, o formato quadrado parece ser mais adequado para trabalhos de aspecto gráfico, still, texturas, objetos comuns que raramente paramos para observar. Não há necessidade de reflexões sociais, crítica, pessoas, elementos que geralmente estão nas minhas fotos, e que prezo muito, mas às vezes fazer apenas imagens, praticar uma fotografia contemplativa, o "Miksang", a busca por um olhar puro, é um ótimo exercício. Contemplar a realidade é contemplar a si mesmo.


Precisamos tentar nos desprender da cascata de reflexões, filtros, amarras e preconceitos sobre o que é belo, sobre o que é digno da arte, sobre a utilidade das imagens, e deixar o coração falar mais alto, fotografar o que nos chama a atenção, e deixar para pensar depois. Não tente ser um bom fotógrafo, seja um bom observador, veja a riqueza do cotidiano, desenvolva a criatividade, e será um bom fotógrafo!


Tento fotografar coisas simples, mostrando a beleza presente em tudo... mas faço isso com pouco sucesso, "porque me falta a simplicidade divina", como disse uma vez Alberto Caeiro (pseudônimo de Fernando Pessoa), esse sim, uma pessoa sábia e simples.

História da Fotografia Contemplativa
Chógyam Trungpa Rinpoché foi um Lama tibetano nascido em 1939 e avançado no estudo e na pratica das diversas disciplinas monásticas tradicionais, assim como à arte da caligrafia, da pintura em tangka e as danças monásticas. Aos 20 anos teve de deixar o Tibete devido à invasão chinesa. Após passar pela Índia e Inglaterra, no Canadá desenvolveu técnicas para passar os ensinamentos budistas através da cultura ocidental, especialmente das artes, como teatro, cinema e fotografia. Assim ele criou os conceitos básicos do que viria a ser definido como fotografia contemplativa ou miksang. Mais tarde ele abandonou os votos monásticos, buscando uma maior proximidade com os alunos. Posteriormente seus discípulos definiram os conceitos da Fotografia Miksang. Saiba mais sobre ele em http://pt.wikipedia.org/wiki/Trungpa_Rinpoché.

O estilo Miksang

“Art in every Day life and every Day life in art”. Há evidentemente um estilo de fotos associado ao Miksang. Mas na verdade Miksang é um método de treinamento do olhar, para podermos “ver mais claro, mais fresco”. Não é “o que”, mas o “como”, por isso qualquer contexto pode ser tema para a fotografia contemplativa. E qualquer resultado visual pode surgir. O estilo é, portanto, o estado de espírito.

Viver artisticamente é ter criatividade em tudo e saber apreciar os detalhes do comum. “Arte na vida cotidiana e vida cotidiana na arte” é o slogan da fotografia contemplativa.

"A arte da experiência meditativa poderia ser chamada de arte genuína. Tal arte não é construída para ser exibida ou difundida. Em vez disso, é um processo em perpétuo desenvolvimento no qual começamos a apreciar o que nos cerca na vida, o que quer que seja — não é preciso que seja, necessariamente, algo bom, belo ou agradável. A definição de arte, desse ponto de vista, é ter a habilidade de ver o caráter único da experiência cotidiana. A cada momento podemos estar fazendo as mesmas coisas — escovando os dentes diariamente, penteando os cabelos diariamente, preparando o jantar diariamente. No entanto, essa aparente repetição se torna única a cada dia. Surge um tipo de intimidade com nossos hábitos diários e com a arte neles envolvida. É por isso que é chamada de arte na vida cotidiana." (Chögyam Trungpa)

Sentimentos ruins, como ansiedade e expectativa, cegam, pois criam expectativas que não nos permitem ver o real. Mas se você vê o mundo de forma clara, suas fotografias serão claras, e o resultado realmente artístico. As coisas comuns podem ser belas e ricas. Mas, no entanto não olhe para elas tentando classificá-las como belas, especiais, etc. Veja apenas formas, cores, texturas, relações. A vida hoje é muito complexa, por isso busque sempre a simplicidade.

Assim devem surgir as seguintes características em suas fotos: claridade, definitivo, preciso, riqueza de cores.

Qualidade de vida
Miksang é ver as coisas como são e conduzir a vida com o coração. O estado de mente contemplativo, por diminuir a ansiedade, resulta em qualidade de vida. Viver no presente e aproveitar o que é real pode causar um forte impacto na vida em geral que quem pratica. Para o budismo a maior ignorância e atraso para uma pessoa é não ter a visão clara.

Recomenda-se a pratica da meditação. Quanto mais espaço na mente, mais o mundo aparecerá original e claro para seus olhos.

Definindo o que é a Fotografia contemplativa
É importante ressaltar que realizar a fotografia contemplativa de forma pura não é fácil. O que propomos aqui é um desafio até para nós mesmos.

Pensando em termos de fotografia contemplativa, há duas formas de ver o mundo:
  • Conceitual: é ver o mundo a partir de seus conceitos, necessidades, ansiedades e razão. É a forma “tradicional” de ver o mundo.
  • Percepção: sem rotulação da realidade. Essa é uma nova forma de ver, mas que na verdade é natural, algo que já está em nós. Trata-se de ver apenas, sem a carga de julgamentos que normalmente colocamos como "filtro" da visão. Esta é a forma de ver da fotografia contemplativa.

A percepção aberta (para o sutil e complexo) permite uma visão mais clara sobre a riqueza do cotidiano, para ficarmos apenas no presente abertos para a emoção. A criatividade então pode nos permitir criar a fotografia realmente artística, a fotografia contemplativa. A arte não é se expressar, mas deixar que a realidade se expresse através de você!

Precisamos ver mais e mais fundo, aprender a ver mesmo sem câmera. É importante também aprender a “curtir” a solidão, ficar só, sem distrações, aparelhos de música, emails no celular, etc...

A fotografia pode ser uma forma de arte para expressar o cotidiano, e para trazer a arte para o cotidiano.

Este artigo terá uma segunda parte, intitulada “Como fazer”.



Autor

Yuri Bittar

Designer, fotógrafo e historiador. Mestre em Ensino em Ciências, na Universidade Federal de São Paulo, graduado em Desenho Industrial (Mackenzie) e História (USP), atua como designer gráfico, desenvolve cursos de fotografia, exposições e as saídas Fotocultura, além de pesquisas sobre humanização no ensino da saúde. Através da história oral, da fotografia, da literatura e outros recursos, tem buscado criar projetos mais próximos ao humano.

Website pessoal: http://www.yuribittar.com


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